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Nostalgia

Celestino Ribeiro

O velho lugre descansava agora amarrado ao trapicho ocidental do porto de St. John’s sobre as águas estanhadas da baía. Quem o via assim quieto, nem imaginava o que ele já tinha passado no mar alto balouçando sobre as ondas tempestuosas dum mar cruel numa luta de gigantes, ou atravessando um mar de perigoso gelo.

    Nos costados podiam ver-se agora os efeitos dessas circunstâncias adversas agravadas pelo arrear e içar dos dóris. A tinta da pintura exterior desgastada deixando à vista o zarcão vermelho de proteção como se fossem feridas abertas num corpo. Abaixo da linha de água via-se o casco coberto de algas verde-escuras dos longos meses passados no mar. Os coiros onde roçavam os cabos das adriças das velas estavam gastos, as velas brancas escurecidas pela exposição às intempéries.

            Mas o velho lugre agora ali estava sereno, a sua silhueta refletida nas águas tranquilas como um guerreiro no seu repouso. Pelo cais passeavam pessoas que o apreciavam e tiravam fotos. Sem dúvida, era uma atração turística que, apesar dos maltratos sofridos  conservava, todavia, a beleza inquestionável.

            A sua presença, para além da bela imagem, espalhava no cais o odor fresco, a mar e a madeira de mar, das artes dum navio de pesca, dando ao cais um cheiro caraterístico.

            Em St. John’s, hoje, no porto, nota-se essa nostálgica ausência dos mastros dos lugres da Frota Branca e do cheiro do cais.

            Nas minhas deambulações recentes pelo porto de St. John’s nos primeiros dias de Outubro passado, senti a nostalgia dessas ausências num cais vazio de barcos, sem animação nem o cheiro caraterístico e inconfundível daquele lugar onde os navios atracavam antigamente.

            A Frota Branca enchia então o porto com uma floresta de mastros e o contraste dos navios brancos tendo como pano de fundo o ambiente cinzento do tempo atmosférico e das águas da baía abrigadas pelas montanhas escuras do outro lado com as suas falésias íngremes e púrpuras descendo para o mar. Estas montanhas á entrada do porto são as majestosas Narrows que estreitam o canal de entrada.

            No cimo da montanha norte destaca-se Signal Hill onde apontam para a entrada do porto  baterias setecentistas umas e outras oitocentistas e a histórica Cabot Tower onde foi recebida a primeira mensagem transatlântica por código Morse.

            Daqui, as vistas são deslumbrantes, ora do mar distante ora da costa recortada ao cabo Spear, originariamente batizado pelos navegadores Portugueses de antanho Cabo da Espera, que os Ingleses usurpadores habilmente rebatizaram para inglês, como o fizeram  outras vezes noutros lugares, mudando para Cap Spear. Assim, pouca gente se lembra que o nome original foi dado pelos marinheiros Portugueses de quinhentos.

            Nestas paragens, entre outros, passa-se o mesmo com Cap Race, do português Cabo Raso, ou ainda, do Virgin RocKs, do português do tempo dos cartógrafos Cantino e Reinel, que assinalaram nos seus mapas, respetivamente, de Pedras e Rochas Virgens .

            Este planalto rochoso, cerca de cem milhas a sueste de St. John’s no meio do mar, eram consideradas enquanto durou a saga da Frota Branca, como mar nosso, mar português. É o cemitério de dezenas de navios desta frota que ali se afundaram ao longo dos tempos.

            Daqui, de Signal Hill, avista-se o mais belo e surpreendente panorama da cidade de St. John’s encimada pela Basílica Católica de S. João Batista e Sé Catedral desta diocese, e as casas coloridas a descer para a baixa do porto.

            Esta cidade é a mais antiga da América do Norte e situa-se no mais extremo ponto desta parte do continente americano.

            Os meus olhos ao descerem para aqui ainda parecem ver a animação do cais cheio de navios da Frota Branca e os pescadores a jogar à bola. Por vezes era uma loucura, tão estranha aos olhos dos canadianos esta paixão. Quando a bola caía à água, havia sempre um afogueado pescador que se lançava à água para a ir buscar e continuar o jogo.

            Estes jogos, às vezes, também se deslocavam para o Parque que existia na parte alta da cidade. Geralmente, quando  eram disputados contra canadianos. No cais, era mais frequente a disputa entre navios.

            Agora o meu olhar passeia pelo cais vazio com a ausência da Frota Branca. Não há mais mastros, nem o cheiro do cais. Foi como se a vida fosse arrancada e só resta a imagem desolada. Esta foi a minha impressão.

            Passear por este lugar de memórias  e sentir o peso das ausências, deixa-me por um instante com a sensação de se me vergarem os ombros. Na minha juventude, a graça duma rapariga a passear junto dos navios fazia-me pular, era uma reserva para a noite nalgum “dancing”. Agora, ninguém passa por aqui, a não ser uma ou outra pessoa, de um ou de outro serviço dos poucos navios pintados de vermelho que ali operam em apoio das plataformas em off- shore de extração de petróleo. St. John’s voltou-se para o petróleo e a pesca é quase nula. Não há uma indústria pesqueira com significado. As fábricas de processamento de pescado encerraram.

            Mas, de todas as imagens passadas da Frota Branca aqui, ficaram as memórias  e a grande amizade de muitos canadianos  por Portugal e os Portugueses, rendidos agora também eles à nostalgia e às lembranças .

            Do Atlantic Place  com vista privilegiada da baía e uma agradável e amiga companhia, enquanto tomávamos  um café tranquilamente, sonhador, o meu olhar perdia-se no tempo. As palavras da minha companhia soavam-me às vozes do passado, como se o tempo voltasse atrás e me trouxesse a melodia intemporal da minha juventude por estas bandas. Mas o meu sonho regressa logo à realidade.

Celestino Ribeiro