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CRÓNICA DE SAINT JOHN’S

 

Celestino Ribeiro

Quando deixei o porto de St. John´s rumo a Portugal a bordo do “Santa Maria Manuela” - embora guardasse o sonho - nunca imaginei a possibilidade de voltar a esta cidade 43 depois. Até porque a saúde é um bem que perdi e isso ainda mais impossibilitava a concretização do sonho. Mas quanto é verdade que não há “ nunca mais”, que o destino no reserva surpresas inconcebíveis. É assim como o amor que não tem idade e ao virar da esquina da vida pode acontecer, quando já se havia perdido toda a esperança.

            Eu realizei o sonho quando agarrei a oportunidade que me foi oferecida de  voltar a St. John’s 43 anos depois, não sem o risco da aventura  resultante da minha periclitante saúde, que nestes últimos tempos tem sido muito afetada. Mas o desejo de realizar o sonho e os motivos desta visita mereciam que eu corresse o risco. E valeu a pena.

            O evento “Viagens à Terra Nova” que se realiza no verão aqui em Vila Praia de Âncora, deu-me a possibilidade de me encontrar com o Pedro Magano, um jovem realizador cinematográfico  e também com o jornalista do jornal o “Público” Abel Coentrão, que já trabalhava numa investigação sobre as sepulturas esquecidas de pescadores bacalhoeiros perdidas no tempo nos cemitérios de St. John’s no Canadá e de Hollestemborg na Gronelândia. Por seu lado Pedro Magano filmava os planos para o documentário “ Special – a um mar de distância”, sobre a temática da epopeia marítima protagonizada pela Frota Branca. O tema associou  os dois, cineasta e jornalista que, por sua vez, se juntaram a Jean Pierre Andrieux, um empresário canadiano e historiador também interessado no projeto e grande amigo de Portugal e dos bacalhoeiros portugueses, tendo escrito já duas obras sobre esta epopeia. A este grupo juntei-me eu convidado pelo Pedro Magano e colaborando nos planos que exigiam a minha experiência vivida de homem do dóri e da Frota Branca com as memórias que conservo dessa saga nacional.

            No documentário, que o Pedro Magano apresentou num ligeiro esboço nas “Viagens à Terra Nova” do passado verão, o jornalista e investigador encontra-me e pede-me uma entrevista. Desde então, somos amigos e convida-me a encontrar a sepultura esquecida dum certo bacalhoeiro de Vila Praia de Âncora que morreu em Maio de 1966: o meu companheiro e amigo Dionísio Esteves que alcunhávamos de o “Murrão”.

            Assim se explica o meu regresso a St. John’s 43 anos depois da última estada, e 49 anos depois deste facto doloroso da perda do meu amigo e companheiro, que veio agora coincidir com a iniciativa de erguer um Memorial na sua sepultura.

            O programa específico desta comemoração constou duma cerimónia na qual participaram muitas pessoas e autoridades canadianas e teve a presença do embaixador de Portugal no Canadá. Também apareceram vindos da América e de Vancouver pessoas interessadas neste acontecimento, bem como portugueses residentes nesta cidade.

            O bispo de St. John’s presidiu à cerimónia preparada especificamente para este ato e o Memorial coberto com um pano e sobre ele a bandeira portuguesa, foi descerrado pelo embaixador de Portugal, o bispo de St. John’s, por mim e pelo Joaquim Rosado, antigo tripulante do “Gil Eanes” e residente em Vancouver.

            A cerimónia realizou-se pela manhã do dia 6 de Outubro, finda a qual fui entrevistado pelos representantes da imprensa, jornais locais, rádio e televisão. Da parte de tarde, foi a receção oficial no hotel Courtier Marriot.

            Nesta cerimónia oficial estiveram presentes elementos da alta sociedade de St. John´s, incluindo o ex-primeiro ministro de Newfoundland, representantes do governo desta província, bispo da diocese de St. John’s, autoridades da marinha canadiana, o embaixador de Portugal no Canadá, senhoras e muitos amigos de Portugal e dos portugueses convidados.

            O ponto mais significativo desta cerimónia foi a entrega pelo embaixador de Portugal ao Jean Pierre Andrieux da comenda da ordem do Infante D. Henrique, com que o presidente da República Portuguesa reconhece os elevados serviços prestados por este canadiano à causa portuguesa e à amizade com Portugal.

            Depois seguiu-se um momento de confraternização e encontro, onde registei, mais uma vez, a amizade e a admiração dos canadianos pelos portugueses, relação cimentada pela lembrança dos milhares de marinheiros que durante muitos anos visitaram esta cidade acolhedora, o segundo porto dos navios bacalhoeiros portugueses.

            Hoje nota-se no porto a ausência dos mastros da nossa frota, a tristeza dessa ausência e o eco distante da animação do cais, os cheiros que emanavam dos nossos navios e davam ao porto uma caraterística particular. A ausência, como aquela registada aqui, onde já ninguém fala de St. John’s quando antes toda a gente andava com este nome na boca. Resta a lembrança para alguns e o resto é história.

            Foi com saudades que deixei St. John’s. Good bye!

Celestino Ribeiro