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Vila Praia de  Âncora marinheira,

irmã de A Guarda

por Celestino Ribeiro

 

Celestino Ribeiro descendente dos Baz guardeses

 

Já aqui fiz um apelo no sentido de se equacionar e  concretizar  o  processo de geminação de VP Âncora com A Guarda  acontecimento que   seria, assim o julgamos, de significativo interesse para as duas comunidades ligadas por afinidades particulares e históricas, especialmente com o nosso Portinho.

 

O Portinho de Vila Praia de Áncora

 

Com efeito, foram os pescadores Guardeses que, - tendo- se estabelecido pacificamente nas primitivas arrecadações do sargaço dos nossos lavradores primeiro, e depois eles mesmos os agentes activos do desenvolvimento do núcleo original do que viria a ser o bairro piscatório junto ao varadouro, e utilizando uma pequena reentrância da costa como porto de armamento da pequena frota constituída por barcos tipo poveiro e gamelas, essas típicas embarcações cujo berço foi A Guarda – fundaram uma comunidade de pescadores que constitui a origem dos marítimos Ancorenses. Uma atividade profissional que antes não existia na velha Gontinhães de lavradores e canteiros. Sempre que nos tivermos de referir às raízes ancestrais dos nossos pescadores e suas famílias, teremos sempre de nos encontrar com A Guarda, esse rincão nostálgico de uma comunidade orgulhosa da sua pertença, de quem receberam a influência fundamental no modo de viver, costumes e tradições.

  

O antigo Portinho ancorense en 1930 con gamelas (masseiras) en 1930. Fotografía cedida por José Mª González Alonso.

  

 

Panorámica do Porto da Guarda en 1981. Fotografía de Luís Cadilla Gonzalez.

 

   Mas agora queria referir- me a A Guarda como um exemplo de fidelidade cultural às suas origens como terra de pescadores, fazendo acontecer uma unidade que define e identifica toda a comunidade Guardeza.

 

 

Monumento ó pescador decoñecido no Porto da Guarda. Fotografía de José A. Uris Guisantes.

 

 

No aspecto da memória histórica, referem- se a A Guarda várias publicações e dois monumentos de grande expressão simbólica: as esculturas em pedra de homenagem ao pescador representado a “alar” as redes do “ xeito “  para bordo da sua gamela , e a mulher do pescador personificada naquela figura feminina, de esposa e mãe de pescadores, perscrutando o horizonte quando a embarcação tarda em regressar, onde já se sente a angústia  e o drama se pressente.

 

Monumento ó mariñeiro do escultor José Antúnez Pousa, inagurado en 1990. Fotografía de José A. Uris Guisantes.

 

Nas montras e outros lugares de interesse turístico, é vulgar encontrar objectos apelativos e recordações características de um meio identificado com o mar.

 

Na gastronomia dos pequenos restaurantes  à borda do porto Guardez, os excelentes pratos e petiscos  ( tapas ) de peixe e marisco, exalam no ar o cheiro inconfundível das suas variadas e sugestivas ementas, que atingem o seu apogeu e interesse nas manifestações populares como as tradicionais festas do Peixe Espada, da Lagosta ( A Guarda é a capital da lagosta ) e, no Entrudo, a festa do Enterro do Peixe Espada.

 

Até na capela do convento de S. Bento, no coração do bairro piscatório, encontramos vasos de flores, que  são réplicas de embarcações aos pés da Virxe del Cármen, padroeira dos pescadores de A Guarda.

 

Antiga fotografía de xullo de 1982 no Varadoiro da Ribeira, preto da igrexa de San Bento con flores e altar para bendecir o mar, gamelas e barcos de pesca. Hoxe nese lugar está o monumento exardíns ó Pescador descoñecido. Fotografía de Luís Cadilla González

 

O mar é para a A Guarda como esta é  para o mar, numa simbiose perfeita e assumida pela comunidade como matriz unificadora reflectida no orgulho da sua identidade cultural. Dá, assim, para entender a matriz profunda daquela solidariedade que une todo um povo em luta contra a tragédia ambiental e seus efeitos negativos sobre a actividade económica da região, desencadeada pela maré negra provocada pelo  afundamento do famigerado “ Prestige”.

 

Fotografía dunha gamela guardesa entrando no porto en 1964. A esquerda o tamen antiguo Varadoiro da Ribeira.Fotografía de Luís Cadilla González.

 

 

O porto de A Guarda, originário como o Portinho numa reentrância natural da costa rochosa, teve uma origem mais antiga e um desenvolvimento mais progressivo no tempo que este, bem assim como a sua zona envolvente actual, alvo de extremos cuidados de embelezamento e valorização.

 

Isto faz- me reflectir – no momento em que as obras do nosso Portinho aguardam pela concretização da 2ª fase – na urgência da elaboração do plano de pormenor da zona envolvente, plano que tarda e nem parece preocupar quem tem essa responsabilidade, talvez por manifesta insensibilidade ou ignorância total relativamente à sua importância e exigência de realização.

 

Um porto de mar, seja ele de que dimensão for, é como um casaco sem mangas se não tiver um plano de pormenor e consequente execução das obras complementares nele projectadas para a sua zona envolvente.

 

Como exemplos próximos de realidades de grandeza distintos mas elucidativos, temos o porto de abrigo de A Guarda e o porto de Viana do Castelo cada qual à sua escala, alvos de intervenções felizes em concretização dos seus respectivos projectos de pormenor, dignos das melhores referências. Seria uma insensatez não trabalhar para esse objectivo e descuidar este aspecto que só honra quem a ele se devota, sabendo e acreditando no potencial de qualidade e projecção  futura, que se oferece  à nossa terra.

 

Masseira (gamela) ancorense en xullo de 2015.

 

Para além do latente apelo à geminação de VP Âncora com a A Guarda, fica o exemplo a seguir relativamente ao património histórico e cultural, de valorização e interesse turístico potenciado  ainda por uma adequada ambientação espacial, tudo orientado em fidelidade ao passado e projectado para o futuro , sem perder nunca o sentido da pertença  que faz de A Guarda uma comunidade coesa e identificada com a sua situação geográfica e histórica de terra marinheira.

 

Celestino Ribeiro